sábado, 6 de outubro de 2012

Patrão fora, dia santo na loja


Normalmente a hora de ir para o escritório é por volta das 8h. Quinta feira, às oito fui ter a casa da Raquel para ver se ela ja estava pronta para irmos para o escritório, cheguei lá e disseram-me que ela já tinha saído mais cedo. Ok pensei, deve ter tido alguma coisa para tratar de manhã, agarrei num dos carros e pus-me a caminho do escritório. Chegando lá estranhei não ver o carro da Raquel: “Sabem da Raquel?  Pensava que ela estava aqui.” “A Raquel? Ah, ela foi hoje de manhã para Lusaka para ir de férias”. Ahahahah! Eu sabia que ela ia de férias na proxima semana, mas ninguém me disse que era na 5ª... inclusivamente ela própria! Hummm... é ridículo eu sei.

Mas é como diz o ditado, “patrão fora, dia santo na loja” e foram uns santos dias sem dúvida! Quinta e sexta fiz o que tinha a fazer no escritório de manhã e aproveitei as tardes para ir andar de kayak e dar uns mergulhos, andando de kayka pelo Luanguinga, de vez em quando encontram-se uns bancos de areia que são autênticas praias paradisiacas, a água é mesmo transparente e a temperatura óptima! Não vi nem crocodilos nem hipopótamos por isso não se preocupem. Aliás, há sempre imensos miúdos a tomar banho no rio e imensos barcos a remos de passagem.

 

À noite decidi ir jantar a um dos restaurantes aqui em Kalabo, há um que dizem que é o melhor de todos e foi para lá que me dirigi. No entanto esqueci-me de um pormenor... dinheiro! Tinha ficado em casa e estando a pé era meia hora para trás... pensei, vou aqui só beber uma cervejinha e depois vou para casa. Mas entretanto encontrei o Chris e o Adrian e fiquei com eles a beber uma cervejinha, entretanto chegaram mais uns scouts e quando dei por mim, estávamos a beber cervejas atrás de cervejas e a falar de como resolver o problema R aqui em Liuwa... Começam a cair umas sementes de revolução aqui em Kalabo! Eheheh!

É que pelos vistos não encontro ninguém que vá à bola com R e toda a gente na aldeia se queixa do mesmo... é o próprio projecto de conservação que está em jogo e a direcção deveria saber disso... 
Só um exemplo: como é que alguém que ganha cerca de 3000$/mês limpos e tem casa, carro e gasóleo da empresa se pode queixar que os ordenados mínimos na Zâmbia subiram para cerca de 150$? Acho que isto diz muito sobre o carácter de uma pessoa...

Qualquer dia já se arrancam mangas das árvores!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Hipo!


Não pensem que ando a viver as aventuras dos PQM* todos os dias! Agora em Kalabo o risco de aventuras aparecerem em cada esquina é diminuto. Acordar cedo, ir para o escritório, trabalhar ao computador, vira a casa almoçar, voltar para o escritório, passar pelo mercado para comprar qualquer coisa que esteja em falta: açucar, legumes, pão, chegar a casa contemplar o rio, jantar, ver um filme e dormir.
Mas hoje aguardava-me uma surpresa quando vim a casa almoçar. A uns 50 metros da tenda,     mesmo no meio do Rio Luanguinga estava um hipopótamo! Ehehe! Que comédia! Era ver os barcos de pescadores a passar e mal viam o hipopótamo paravam os barcos ou iam o mais lentamente possível junto ás margens enquanto pessoas do outro lado do rio faziam barulho para afastar o animal.

Hipopótamo visto da tenda (pontinho preto no meio do rio)

Agora em ponto grande
Hoje arranjei (finalmente!) uma cana de pesca, não é mais do que uma vara de bambu com uns 4 metros de fio de pesca atado na ponta da vara e um chumbo e um anzol. Agora só falta arranjar minhocas e posso começar a comer peixe com fartura, pelos vistos aqui neste rio e bem perto da tenda apanham-se belos peixes!

Nascer da lua em Kalabo
*PQM – Partido dos Quatro Malucos. Nome que eu, a minha irmã e os meus primos João e Carlitos adoptámos quando éramos putos (não somos ainda?) e andávamos em aventuras, ora na Ribeira de Seiça, em baldios (a Montanha!), casa do Tio Zé em Manique, prédios abandonados, praias, sofás... 


sábado, 29 de setembro de 2012

Conservação?


Muito tenho pensado nestes últimos dias sobre a conservação da natureza em África. Na verdade tenho pensado tanto que até me custa escrever sobre isso, na minha cabeça há uma data de ideias soltas que tentar sintetizá-las a todas num texto inteligível não é nada fácil...

família de hienas a relaxar ao sol

Sempre fui (e ainda sou, calma pessoal!) um amante da natureza, daí ter o desejo de trabalhar em conservação tanto em Portugal como aqui em África. No entanto os paradigmas são tão diferentes que nem sei por onde começar...

Talvez devesse começar pelo carinho que ando a ganhar pelas gentes daqui e a aversão que começo a sentir pelos brancos endinheirados que por aqui andam... Na verdade tudo se resume a isso: brancos endinheirados Vs gentes locais.

Claro que de certeza que isto não se passa exclusivamente em África, o panorama não deve ser assim tão diferente na América do Sul, Sudoeste Asiático e ilhas várias na oceania e por esses mares tropicais fora. Mas é em África que eu estou e por isso é sobre África que me debruço.

O que ando a sentir aqui é que existe a apropriação do espaço e dos direitos sobre a terra por parte de organizações em nome da conservação da natureza. Claro que para conservar é necessário algumas regras, limites, imposições, mas... as pessoas que aqui andam sempre viveram desta terra, com estes animais, a terra é delas não? Não... pelos vistos não. Aqui pelos vistos, as pessoas não podem erguer vedações de paus à volta das suas colheitas, mas os brancos podem erguer uma vedação electrificada à volta de uma pista de aterragem com 1,5 Km de comprimento... são estas merdas que me andam a irritar. Parece que especialmente aqui em África a conservação é feita, com o principal objectivo de lucrar com as visitas de brancos ricos dispostos a pagar 600$/pessoa/noite como alguns casos... e claro esses podem fazer tudo... os dólares deles compram tudo...

Começo a achar que há alguma podridão à volta da conservação neste continente... afinal de contas, uma pessoa preocupar-se com a conservação da natureza é um luxo. Sem comida, água, luz, saúde, como é que estas pessoas se vão preocupar com a conservação? Mas depois vêm os dolares americanos, europeus, sul-africanos impor ainda mais restrições... faz-me confusão, a sério que faz. Sim eu sei, teoricamente através do turismo da natureza, a conservação pode ajudar a enriquecer o país e as comunidades locias, mas é só teoricamente, pelo menos aqui. Ás vezes penso que África é quase como um Zoo para os ocidentais... Já muito tinha ouvido falar sobre este assunto, mas senti-lo é outra coisa. A conservação da natureza em áfrica é feita por brancos para brancos.


Cada vez mais acho que a conservação só faz sentido quando se tem a população do nosso lado. Conservação não só da natureza mas também das economias locais e das pessoas, acompanhado de um grande esforço e investimento na parte da sensibilização ambiental, de outra forma, a longo prazo nunca irá ser uma ceonservação bem sucedida a longo prazo.

Por exemplo, uma pessoa rouba. O que é que será mais eficaz? Dar-lhe com um pau nas costas e prende-la, ou explicar-lhe que roubar é mau e dar-lhe as ferramentas necessárias para não ter necessidade de roubar? Parece que aqui em África é mais fácil e simples dar com o pau nas costas...

Não quero dizer com isto que não faça sentido conservar e que todos os brancos que por aqui andam são assim, é só uma reflexão, mas é algo que me faz sentir um bocado mal... Sinto-me quase como o tipo do dança com lobos que inicialmente combatia os índios e depois junta-se aos índios contra os cowboys... quem diz dança com lobos, diz pocahontas, último samurai ou avatar... a fórmula é a mesma, mas funciona não é? E pelos vistos não é assim tão descabido...




Introdução tardia


Porquê fazer uma introdução passados dois meses? Bem, era algo que já tinha pensado que devia fazer, mas a perguiça de escrever fez com que esta tarefa fosse constantemente adiada. Aproveito este fim de semana de descanso aqui em Kalabo para o fazer.

A ideia de fazer voluntariado, num local como África, América do Sul ou Ásia, há muito que me andava a atormentar o espírito. Queria fazer, mas não sabia muito bem quando, onde, como, com quem... Podia não ser voluntariado, na verdade podia ser qualquer coisa, mais do que querer fazer voluntariado ou trabalhar, o que eu procurava mesmo era a experiência de estar num destes sítios durante algum tempo, viver no mato!
Com o estágio na LPN a terminar e sem propostas de continuidade, comecei a fazer contactos. Porque não a Gorongosa em Moçambique? Pareceu-me bem! Enviei um mail, assunto: quero ir, fazer seja lá o que for. A resposta foi positiva, mas... “podes vir quando quiseres, desde que com financiamento próprio”. “Ok fixe, eles pareceram gostar de mim, mas onde é que eu vou arranjar financiamento?” 

Daí decidi ir falar com um professor da FCUL que apesar de não o conhecer pessoalmente sabia que a linha de investigação dele era na onde do que eu queria fazer e com tantos projectos além fronteiras, era concerteza a pessoa indicada para me aconselhar. Mais uma vez, enviei um mail: “não me conhce, mas acho que  é a pessoa indicada para discutir consigo uma série de coisas”, mais uma vez a resposta foi positiva “ Ok, aparece no meu gabinete dia X às X horas”. Após alguma conversa disse-me que era algo complicado arranjar financiamento para ir para a Gorongosa nessa altura, que talvez só no ano seguinte e que era preciso muito dinheiro uma vez que precisava de pagar tudo: casa, gasóleo, comida, etc etc... mas heis que após alguma refelxão “pah, mas se queres mesmo ir para África, há uma organização chamada African Parks que de certeza que te aceita como voluntário”.

Nesse mesmo dia cheguei a casa e decidi enviar um mail como sugerido: uma carta de motivação com o CV em anexo. O destino não importava, o que importava era ir: candidatei-me para 3 parques, Odzala na República Democrática do Congo, Garamba no Congo e Liuwa Plain na Zâmbia. A resposta não poderia ter sido mais rápida e inesperada, no dia seguinte já tinha uma resposta: “Ok! Se quiseres vir para Liuwa Plain serás bem vindo!”. E pronto... a partir daí foi só acertar agulhas e arriscar.

Entretanto a proposta da LPN já tinha chegado e já estava de novo no Programa Lince, mas o comboio de África já estava em andamento... já não havia nada a fazer, não podia deixar passar esta oportunidade. O resto já vocês sabem...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mais uma semana passada em Matamanene.
Mais uma semana sem comunicações, daí as entradas no blogue estarem a ser tão esporádicas. É o que há meus amigos, isto de andar no mato tem destas coisas... Ok eu sei, há um spot com internet no parque, mas é uma coisa muito especial, pois o sinal que se apanha é muito muito fraquinho e só ao fim do dia/noite e quando não há vento... mais uma vez é como vos digo... é o que há! :)
Agora já estou em Kalabo, regresssei ontem ao fim do dia, e amanhã ou 5ª já volto outra vez para o mato. Mais uma semana sem comunicações.

Águia pesqueira africana e grous coroados

No outro dia em Matamenene faltou a luz. Sim, porque entre outras coisas a luz é um bem precioso. Temos um gerador e três painéis solares que alimentam uma bateria de 12 baterias. Mas para computadores, luz, frigorífico os painéis são insuficientes e a gasolina para o gerador tem que ser bem racionada... ou seja, ligo o frigorífico umas 2 horas por dia e já vai com sorte! Mas pronto, como vos estava a dizer faltou a luz à noite. E eu pensei, "Epah, não vale a pena ligar o gerador agora, fica para amanhã, tenho bateria no portátil, vou ver um episódio de uma série e vou dormir", esta era a minha ideia inicial, mas sem luz, a única fonte de luz em casa era o ecrã do computador e este estava constantemente a ser bombardeado por toda a espécie de insectos voadores possíveis e imaginários, o computador e a minha cabeça está claro. Desisti. "Vou mas é dormir..." Chego ao quarto e reparo na minha rede mosquiteira à volta da cama. "Que coisa fenomenal isto das redes mosquiteiras, tanto insecto à minha volta e eu aqui dentro estou em paz. Deito-me. Ainda com a lanterna ligada olho para cima e exactamente por cima da minha cara a uns dois palmos de distância vejo um aranhão gigante! "Epah que engraçado, a sacana da aranha usa isto como uma teia para apanhar os insectos que andam aí". Olho melhor: "Fogo! a sacana está do lado de dentro! ainda me cai na boca durante a noite!" (mais uma vez, "fogo" e "sacana" não são as palavras exactas) saio da cama e espeto uma chinelada valente na aranha... bem... e assim fui dormir descansado com a aranha agora desfeita em papa entre o meu chinelo e a rede.

No outro dia estava distraído ao computador quando oiço um barulho, era um sacana de um macaco de volta do frasco do café! eheheh!

De volta a Kalabo: os jacarandás já estão em flor! Até parece Lisboa!